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3 princípios estoicos para uma melhor acessibilidade web

3 princípios estoicos para uma melhor acessibilidade web

Trabalhar com acessibilidade dentro de empresas raramente é só uma questão técnica. Boa parte do trabalho é navegar opiniões, hierarquias e prazos com colegas que nem sempre estão dispostos a comprar a causa. Nesse contexto, recorrer a princípios mais antigos pode ajudar a manter o rumo.

No artigo a seguir, Steve Frenzel destila 3 princípios estoicos e mostra como aplicá-los no dia a dia de quem leva acessibilidade a sério, mesmo (ou justamente) quando o ambiente parece empurrar na direção contrária.

Gerencie a si mesmo, não o mundo exterior

Ter a emoção, mas não ser dominado por ela.

Não é possível influenciar como cada colega lida com a questão da acessibilidade, mas é possível decidir estar presente.

Há muitas coisas sobre as quais não se tem controle: leis, recomendações, opiniões, hierarquias, tecnologias adotadas, cores da marca e por aí vai. Isso pode ser bastante frustrante, e a sensação é de que a própria voz não é ouvida.

Ainda assim, vale não se desencorajar nem levar para o lado pessoal: mesmo dentro desse espaço apertado, ainda cabe a cada profissional decidir como trabalhar com tais restrições.

Pode não ser viável escapar do peso do mundo corporativo, mas dá para seguir fazendo o melhor possível: não levar para o lado pessoal e continuar caminhando rumo ao objetivo, melhorar a experiência das pessoas, colaborar com os colegas e, no caminho, proteger o empregador de eventuais processos judiciais.

Incomoda quando uma liderança técnica afirma que apenas 1% dos seus usuários têm alguma deficiência e que, francamente, ela não está nem aí para acessibilidade?

Frenzel relata que algo assim o incomodou, sim, mas não o impediu de “matar com gentileza”: perguntou educadamente de onde vinha esse número inventado e se a pessoa estaria a par de que existem cerca de 7,9 milhões de pessoas com deficiência oficialmente registrada na Alemanha.

Tudo é uma oportunidade, inclusive o sofrimento

O obstáculo é o caminho.

Considere como exemplo o temido padrão de carrossel: há insistência em usá-lo na home, de preferência por meio de uma solução pronta de terceiros, porque “precisa ser feito rápido”.

A decisão está tomada, o cliente insiste que o componente deve ser usado e não há margem para mudar esse rumo.

O que ainda cabe fazer é influenciar, educando os colegas sobre as implicações. Bem-vindo ao parque de diversões da dor, sente-se no carrossel do irracional.

O padrão de carrossel não só é questionável e provavelmente não terá o efeito desejado, como também é extremamente complexo de implementar, sobretudo quando precisa ser acessível.

O ARIA Authoring Practices Guide explica o padrão Carousel (Slide Show or Image Rotator) em detalhes, caso seja útil dar aos colegas da equipe de desenvolvimento uma espiada nos bastidores e fazer as glândulas sudoríparas trabalharem em hora extra.

Se a oferta precisa ser acessível, é necessário investir tempo (e, portanto, dinheiro) para encontrar uma solução pronta adequada, adaptá-la ou escrevê-la do zero.

Sonja Weckenmann, da tollwerk, escreveu um artigo bastante detalhado e excelente sobre como criar carrosséis acessíveis.

O artigo está em alemão, mas o navegador de preferência costuma dar conta de traduzí-lo para o idioma desejado.

Outra possibilidade é tentar convencer os colegas a integrar uma solução MVP (Minimum Viable Product) que ofereça apenas rolagem horizontal simples.

Reduzido à essência, é exatamente isso que esse padrão é: um contêiner por onde se navega horizontalmente para acessar o conteúdo.

Essa solução pode ser implementada de forma rápida e fácil, e a barra de rolagem horizontal pode até ser estilizada com as cores da marca via CSS.

Apoiada nessa abordagem de progressive enhancement, é possível agregar mais complexidade depois.

Há ainda uma alternativa (a preferida de Frenzel) que é reavaliar o uso do carrossel mesmo depois de o padrão já ter sido escolhido. Nesse ponto, todas as pessoas envolvidas já deveriam conhecer as muitas desvantagens e as poucas vantagens e formar a própria opinião.

Simplificar o design por meio de feedback é parte importante da produção de interfaces excelentes.

Se, ainda assim, o carrossel precisar ser implementado como desejado, haverá sofrimento (para quem implementa e para os colegas), mas também muito aprendizado sobre acessibilidade durante a construção de um carrossel verdadeiramente acessível.

Escolha a virtude em vez do conforto

Nas manhãs em que custa levantar, mantenha este pensamento: estou despertando para o trabalho de um ser humano. Por que, então, me irrito por ir fazer aquilo para o qual fui feito, justamente as coisas para as quais fui colocado neste mundo? Ou fui feito para isto, para me enroscar nas cobertas e me manter aquecido? É tão prazeroso. Você foi, então, feito para o prazer? Em suma, para ser mimado ou para se esforçar? — Marco Aurélio, Meditações, 5.1

Em outras palavras: há dias em que se questiona por que levantar da cama e se submeter ao estresse cotidiano, quando seria possível simplesmente ficar embaixo das cobertas.

Pegue o exemplo anterior: em vez de travar uma batalha perdida tentando dissuadir o chefe da ideia do carrossel com argumentos sólidos, dá para simplesmente entregar e seguir em frente.

Por mais sombria que essa situação pareça, está tudo bem. Havendo um pouco de fôlego, por que não documentar o processo internamente? Se o tema voltar à pauta, é possível mostrar em detalhes o que precisou ser feito e quanto trabalho envolveu.

Outras formas de ir além podem incluir:

  • Publicar um estudo de caso como parte do blog da empresa (se houver) e, com isso, ajudar outras pessoas mostrando que a empresa leva acessibilidade a sério
  • Envolver pessoas de design na criação de imagens com anotações de acessibilidade para tornar o processo mais fácil de entender por um público não técnico
  • Escrever uma documentação clara e de fácil entendimento é uma habilidade importante que não só aumenta o valor de mercado de quem a domina como também pode melhorar bastante as habilidades de comunicação

Frenzel relata o caso de um colega que se interessava muito pelo tema, mas não tinha capacidade de trabalho para se dedicar a ele.

Quando o colega pediu uma espiada nos bastidores e Frenzel mostrou tudo o que entra no trabalho de quem pratica acessibilidade, a surpresa foi grande. Momentos como esse também ajudam a despertar a consciência dentro da equipe e a sensibilizar as pessoas para o tópico.

Mesmo que só haja fôlego para fazer uma dessas coisas, pouco já é muito. Colegas atentos vão notar e ficar gratos por alguém ter feito o esforço extra.

E quem sabe, talvez até se inspirem a seguir o exemplo ao perceberem que isso facilita o próprio trabalho.

Concluindo

Quem buscar com calma vai encontrar muito mais do que apenas estes 3 princípios. Alguns talvez não sejam tão fáceis de aplicar ao trabalho com acessibilidade web, mas, outros, sim.

Estes 3 princípios ajudaram Frenzel a recuar alguns passos e olhar o próprio trabalho de uma perspectiva mais ampla.

Por aqui também há boas portas de entrada para quem está começando, como acessibilidade web para iniciantes e a relação entre acessibilidade e design.

O importante é ficar atendo para não se ver preso em detalhes técnicos e esquecer que se está trabalhando com muitas pessoas diferentes para, no fim das contas, permitir que o maior número possível de pessoas participe da vida digital.